ESTUDO DE CASO – NARRATIVA PARA PROBLEMATIZAÇÃO

Maria tem 12 anos e mora na Vila Nova Esperança, uma comunidade na periferia da zona sul da cidade. Ela vive com a mãe, Rosa, de 34 anos, e três irmãos menores: João Pedro (9 anos), Ana Clara (6 anos) e Gabriel (4 anos). O pai abandonou a família há dois anos, após um longo histórico de violência doméstica e alcoolismo. Desde então, Rosa sustenta sozinha os quatro filhos, trabalhando como diarista e ganhando cerca de R$ 800,00 por mês em trabalhos irregulares.

A rotina de Maria começa às 5h da manhã. Ela é quem prepara o café da manhã, acorda os irmãos e os leva para a escola antes de ir para suas próprias aulas no 6º ano. Após a escola, Maria assume responsabilidades de adulto. Ela busca os irmãos menores, prepara o almoço com os poucos recursos disponíveis e, a partir das 16h, vai para o sinal de trânsito vender balas e doces. Seu objetivo é ganhar ao menos R$ 20,00 por tarde para ajudar nas despesas, mas nem sempre consegue. Volta para casa depois das 19h, cansada e, muitas vezes, sem ter vendido nada, acumulando dívidas com o vendedor que fornece os produtos.

Na escola, Maria enfrenta bullying constante. As colegas a chamam de “fedorenta” e “mendiga”, zombam de suas roupas desgastadas e a excluem dos trabalhos em grupo. Fotos dela circulam em grupos de WhatsApp com legendas humilhantes. Seu rendimento escolar despencou de 6,0 para 3,5, e ela tem evitado cada vez mais ir às aulas. Os professores, sobrecarregados, não perceberam a gravidade da situação.

A situação se agravou nas últimas semanas. A mãe de Maria passou mal no trabalho devido a uma crise de hipertensão e foi orientada a tomar medicamentos que a família não pode comprar. Gabriel, o caçula de 4 anos, deveria estar na pré-escola, mas está há 18 meses na fila de espera e fica sozinho em casa quando Maria vai à escola. A família está com três meses de aluguel atrasado e sob ameaça de despejo.

O episódio mais preocupante aconteceu na semana passada. Quando Maria voltava do sinal, um vizinho conhecido da comunidade, visivelmente alcoolizado, a abordou de forma inadequada. Ele fez comentários sobre o corpo dela, ofereceu dinheiro em troca de “favorzinhos” e segurou seu braço quando ela tentou fugir. Maria conseguiu se soltar e correu para casa, mas não contou à mãe, que estava exausta demais para conversar. Desde então, ela tem evitado passar pela rua onde mora o homem, chegando cada vez mais tarde em casa e desenvolvendo insônia.

O território onde Maria vive é marcado pela violência. A Vila Nova Esperança é uma ocupação irregular de 15 anos com aproximadamente 4.500 famílias, nas quais 78% vivem com renda de até um salário-mínimo. A comunidade enfrenta disputas entre facções criminosas, com média de dois homicídios por mês, a maioria de jovens entre 15 e 24 anos. Há um toque de recolher informal após as 22h, imposto pelo tráfico local. A infraestrutura pública é precária: uma UBS sobrecarregada, uma escola lotada, falta de iluminação pública e ausência de policiamento regular.

Fonte: ​Elaborado pelo professor, 2026.

Faculdade: Unicesumar